“Brain rot” e o convite para mudarmos a forma como temos alimentado nosso cérebro

“Brain rot” e o convite para mudarmos a forma como temos alimentado nosso cérebro

Assim que vi o anúncio da palavra do ano segundo o dicionário Oxford, lembrei daquela expressão conhecida: você é o que você come. No caso, eu não estava pensando nos nossos hábitos alimentares ou no debate sobre os ultraprocessados, mas na forma que temos nutrido o nosso intelecto.

Para quem não sabe do que estou falando, vou dar um breve contexto. De acordo com uma análise de dados feita anualmente pela publicação britânica, o termo que define 2024 é “brain rot”, uma expressão que diz respeito ao esgotamento mental que sentimos em função do consumo excessivo de conteúdo superficial e pouco desafiador, especialmente nas redes sociais.

Da mesma forma que uma alimentação pobre em nutrientes pode causar problemas médicos, uma rotina de consumo de informação rasa impacta negativamente a nossa saúde mental. Só que, nesse segundo caso, não dá para consultar uma pessoa especializada em nutrição ou em endocrinologia para resolver o problema.

O que fazer, então?

Excluir nossas contas em redes sociais ou banir qualquer tela de nossas vidas parece não só uma medida drástica, como ineficiente. Vivemos em um mundo que demanda a nossa presença online — não é todo mundo que pode fazer como Henry David Thoreau e se refugiar em uma cabana à beira de um lago, longe da agitação da sociedade moderna. Foi em um dos livros desse escritor, aliás, que apareceu pela primeira vez o termo “brain rot”.

Além disso, demonizar a tecnologia parece uma visão simplista. Sim, precisamos falar sobre o vício em tela, sobre as armadilhas dos algoritmos e tantas outras questões. Contudo, acredito que devemos conversar sobre esse assunto para desenvolvermos maior letramento digital e não para retomarmos o ludismo da época da revolução industrial.

Bem, mas se não podemos — nem devemos — fugir da era da hiperconectividade, como fazemos para estar nela e, mesmo assim, não deixarmos o nosso cérebro “apodrecer”?

Como começar a nova dieta intelectual?

Na minha opinião, uma nova dieta demanda, antes de tudo, tempo para apreciar “alimentos” de melhor qualidade. Por isso, diante da palavra do ano e de tudo o que temos vivido, eu acredito que será cada vez mais importante o nosso compromisso com o descanso ativo.

Isso porque, em algum grau, parte do problema está na nossa rotina agitada. Da mesma forma que os ultraprocessados se mostraram uma opção prática e rápida para o dia a dia corrido, os vídeos de poucos segundos, posts curtos e memes se tornaram conteúdos mais fáceis de serem digeridos em meio à agitação cotidiana.

De novo, não é que as redes sociais sejam vilãs e devam ser banidas, a questão é quando só nos alimentamos delas porque não temos tempo nem energia para consumir mais nada.

Foi olhando para essa realidade que o filósofo Alex Soojung-Kim Pang desenvolveu a tese de que precisamos de intencionalidade nas nossas pausas. Assim como agendamos compromissos de trabalho, precisamos separar um tempo na nossa rotina para simplesmente descansar. E o especialista não está se referindo às horas de sono, muito menos ao movimento do dedo passando pela tela do celular.

O descanso ativo tem a ver com abrir espaço para uma nutrição saudável do nosso cérebro. Não adianta nada ter bons alimentos à disposição, se falta tempo para degustá-los.

Quando estamos com a cabeça relaxada, temos mais disposição para aprender e absorver novos conhecimentos. Uma mente descansada e bem nutrida é não só mais saudável, bem como mais criativa, eficiente e capaz de enfrentar os desafios do mundo contemporâneo com clareza e resiliência.

O segredo, aqui, é descobrir quais atividades realmente nutrem a sua mente, renovam as suas energias e proporcionam um equilíbrio saudável entre trabalho, lazer e aprendizado. Não existe uma dieta milagrosa, você vai precisar descobrir a sua própria receita e testá-la algumas vezes até chegar no ponto certo. Afinal, cozinhar é uma arte — e saber descansar e nutrir a nossa mente também.

Fonte: Sofia Esteves, ExameLeia o texto na íntegra aqui

Gabriela Ester
Gabriela Ester

Analista de Comunicação na Vertical Braz Alpinismo Industrial

Artigos: 9

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